Assessoria de Imprensa

#ÓDIONÃO: Escuta qualificada auxilia mulheres a quebrarem ciclo de violência

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Medo, culpa e constrangimento são algumas das marcas psicológicas carregadas pelas mulheres que sofrem violência, e fazem parte do ciclo que muitas delas não conseguem romper. A escuta qualificada durante o atendimento dispensado a estas vítimas é fundamental e foi o tema escolhido pelo Conselho Regional de Psicologia de Mato Grosso (CRP 18-MT) dentro da campanha nacional “#discursodeódionão”.

O lançamento da iniciativa em âmbito regional ocorreu na sexta-feira (12.04), durante palestra com tema “Do consultório às políticas públicas: a atuação profissional de psicologia em atendimento às mulheres vítimas de violência”. O evento reuniu cerca de 100 pessoas, entre profissionais da área, estudantes e representantes da sociedade civil organizada, no Centro Universitário de Várzea Grande (Univag).

Para uma das palestrantes, a mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), Caroline Weiss Albuquerque, o profissional precisa entender a que violência contra a mulher começa antes de uma denúncia. “Quando se apresentam as particularidades é possível perceber que existem razões e motivações dentro das relações, porque na grande maioria das vezes a gente está falando de relações de amor”.

Segundo ela, que também é psicanalista membro do Laço Analítico Escola de Psicanálise de Cuiabá, o mais difícil para a vítima é reconhecer e compreender ou encontrar artifícios para sair do relacionamento abusivo. “Na maioria das vezes a gente não está falando de um algoz, mas de alguém por quem essa mulher se apaixonou, fez sonhos, construiu família, então a delicadeza da escuta vem justamente no sentido de identificar as motivações particulares de cada caso para fazer o atendimento adequado”.

Membro da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Flávia Cristina Silveira Lemos frisou que a violência não ocorre de forma inesperada. “É muito importante, cada vez mais, enfrentar os discursos de ódio que estão sendo difundidos e até naturalizados e que, de alguma forma, resultam em ações de extrema violência, como acontece nos casos de feminicídio, por exemplo”, explicou a mestre, doutora e pós-doutora em Psicologia e Subjetividade pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

A palestra também contou com a explanação da coordenadora do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública de Mato Grosso (Nudem), Rosana Leite, que atende não só casos de violência doméstica, mas qualquer um que viole os direitos das mulheres. “Mesmo com Leis importantes aprovadas no Brasil, precisamos sempre fomentar este debate, para que a sociedade entenda que amparar uma mulher é proteger a sociedade. As mulheres precisam primeiro se reconhecerem como vítimas e o papel da psicologia é de extrema importância nisso para que elas rompam com o ciclo de relacionamentos abusivos”.

Estudante do 9° semestre de Psicologia, Angela Nobokiti acredita que a violência ainda existe pela dificuldade que as mulheres encontram para ocupar espaços. “Com mais oportunidades e direitos conquistados, conseguiremos avançar e nos impor cada vez mais”. A falta de autonomia, na avaliação dela, limita a maioria das mulheres que passam por esta situação. “Então, quanto mais visibilidade à mulher em espaços de liderança e poder, mais avanços contra a violência teremos”, acrescentou.

A escolha do tema

Somente no mês de janeiro de 2019 foram registradas 1.606 ocorrências de ameaças a mulheres em Mato Grosso. No mesmo período de 2018, foram 1.724. O registro de lesão corporal é o segundo maior da lista, com 758 e 762, respectivamente. Os dados preocupantes, levantados pela Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT), foi um dos motivos para a escolha do tema de lançamento da campanha do CFP. “Observamos maior visibilidade dos casos de violência contra a mulher, especialmente com relação a Mato Grosso. Então, promover este debate é fundamental, porque visa criar estratégias de sensibilização sobre o que a gente pode fazer para contribuir neste combate”, explicou a presidente do CRP 18-MT, Morgana Moura.

A campanha nacional de Direitos Humanos do CPF tem como eixo central fazer contraponto aos discursos de ódio contra populações historicamente vulneráveis e estimular o respeito e ações humanizadas e humanizadoras. A iniciativa faz referência aos povos tradicionais, à população em situação de rua, à população negra, à população LGBT, aos usuários de drogas, às mulheres, aos usuários de serviços de saúde mental, às crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e às pessoas privadas de liberdade.

A coordenadora da Comissão de Direitos Humanos do CRP 18-MT, Zeni Luersen, ressaltou que o papel do órgão é suscitar a reflexão sobre o quanto a Psicologia pode atuar para evitar o sofrimento que as pessoas socialmente vulneráveis têm apenas por tentarem firmar seu lugar na sociedade. “Nosso papel é suscitar o debate para que de alguma forma as pessoas se sintam encorajadas a buscar seus direitos, e também de forma a sensibilizar todos os cidadãos sobre o respeito ao próximo”.

Outros dados

O levantamento da Sesp-MT também apontou que os crimes de injúria e calúnia foram responsáveis por 442 e 139 ocorrências registradas por mulheres em janeiro de 2019 no estado. No mesmo período do ano anterior foram 404 e 122, respectivamente. São situações que não configuram agressão física e comumente consideradas menos graves, mas que geralmente antecedem os crimes mais graves, inclusive feminicídios.

Entre janeiro e fevereiro de 2019, Mato Grosso contabilizou 16 homicídios de vítimas femininas. No mesmo período de 2018, foram 18 mortes envolvendo mulheres no estado. Vale ressaltar que estes dados incluem todas as motivações, já que o feminicídio é uma circunstância apurada ao longo do inquérito investigativo. Já entre janeiro e dezembro de 2018 foram registrados 38 casos de feminicídios, dados fechados com base nos inquéritos abertos no período.

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